Crítica · Destaques

Rua do Samba: São Paulo renomeia via na Barra Funda

ResumoRua do Samba é o novo nome da antiga Rua João de Barros, na Barra Funda, zona oeste de São Paulo, oficializado em 28 de julho. O logradouro abriga rodas de samba desde a década de 1980, tornando-se símbolo da memória negra do bairro. A renomeação reconhece o valor cultural e histórico do local para a cidade.

Em 28 de julho, a Rua João de Barros, na Barra Funda, zona oeste de São Paulo, foi rebatizada como Rua do Samba. O local é endereço de rodas de samba desde a década de 1980 e agora celebra a memória negra do bairro.

Otto Veríssimo
Otto Veríssimo Colunista de artes visuais · 01 de agosto de 2026
Rua do Samba: São Paulo renomeia via na Barra Funda
7.7/10
VereditoEm 28 de julho, a Rua João de Barros, na Barra Funda, zona oeste de São Paulo, foi rebatizada como Rua do Samba. O local é endereço de rodas de samba desde a década de 1980 e agora celebra a memória negra do bairro.

Em São Paulo, rua é renomeada em homenagem à história do samba

A Rua João de Barros, na Barra Funda, zona oeste de São Paulo, foi rebatizada como Rua do Samba em 28 de julho. Com apenas uma quadra, o local é endereço de rodas de samba desde a década de 1980, quando Carlos Alberto Tobias organizava eventos na rua. A placa nova não é só um gesto simbólico: ela carrega décadas de história e uma disputa pela memória.

O que a Rua do Samba representa para a Barra Funda

O nome na placa representa mais do que o reconhecimento do gênero musical. É também um resgate de memória da população negra no bairro, como é o caso da família da cantora e compositora Simone Tobias, filha de Carlos Alberto e neta de seu Inocêncio, que reorganizou um antigo grupo carnavalesco em 1953. Depois, o grupo se tornou a Escola Camisa Verde e Branco.

Repare no detalhe: a história da escola começa antes, em 1914. "Em 1914, seu Dionísio Barbosa, que era tio da minha avó paterna, funda o grupo carnavalesco Barra Funda. Em 53, meu vô começa esse movimento para chamar algumas pessoas para fazer parte de um novo cordão e usa as cores primárias do Grupo da Barra Funda para homenagear seu Dionísio", conta Simone.

O avô usava o apelido "camisas verdes", mas inseria o branco para que "não fosse mais confundido com os integralistas". Os ensaios aconteciam em frente à casa da família Tobias, um porão em um antigo cortiço que não existe mais.

A especulação imobiliária e a dispersão da comunidade

Simone diz que o senso de comunidade e pertencimento foi afetado pela especulação imobiliária ainda no final da década de 1970, empurrando os moradores para longe. "Mesmo para a minha família, que na década de 80 foi morar na periferia da zona norte, ficava inviável entender como é essa loucura, né? Essa higienização, novamente feita para que a negritude fosse colocada nas periferias da cidade".

Cartografias de Bambas e a luta contra o apagamento

Em busca da valorização da memória negra do samba no bairro, antes que a gentrificação apague sua história, surgiu o projeto Cartografias de Bambas, coordenado por Nathália Oliveira. Ela ressalta que o movimento diz mais sobre o pertencimento a um território do que apenas à musicalidade.

"O samba entendido apenas como um som é esvaziar totalmente de sentido a construção dessa história. Quando a gente reconhece um bairro que está cada vez mais embranquecendo, é ir apagando o legado, né?", questiona Nathália. Para ela, o reconhecimento da Rua do Samba "é um momento em que a gente também tem que provocar uma discussão na cidade sobre como as pessoas negras permanecem no seu lugar de memória construída pelos seus antepassados".

Festival mensal reconecta o território

Uma das iniciativas que contribuem para a permanência e memória da comunidade negra é o Festival Cartografias de Bambas, que reúne mensalmente sambistas e coletivos culturais na Rua do Samba. Esse tipo de evento, para Nathália, reconecta as pessoas com o território. O festival já ocorre há oito meses, e ela observa: "A gente vai vendo como o público cada vez mais vai enegrecendo".

Largo da Banana: o berço do samba paulistano

Antes da Rua do Samba, um outro ponto já reconhecia a Barra Funda como berço do samba paulistano: o Largo da Banana. Ali, estivadores negros se reuniam no final do século 19 para cantar e tocar o que daria origem ao samba na cidade. No local, foi construído um viaduto na década de 1950, e do lugar de memória restou apenas uma placa.

Memória como política pública

No manifesto Rua do Samba da Barra Funda, o projeto Cartografias de Bambas reforça que memória também é política pública. E que a Rua do Samba siga como "patrimônio vivo, chão de memória e encruzilhada de futuros".

Perguntas Frequentes

Quando a Rua João de Barros foi renomeada?

A Rua João de Barros, na Barra Funda, foi rebatizada como Rua do Samba em 28 de julho.

Onde fica a Rua do Samba?

A Rua do Samba fica na Barra Funda, zona oeste de São Paulo, e tem apenas uma quadra.

Qual a relação da Rua do Samba com a Escola Camisa Verde e Branco?

A escola surgiu de um grupo carnavalesco reorganizado em 1953 por seu Inocêncio, avô de Simone Tobias, cuja família organizava rodas de samba na rua desde os anos 1980.

O que é o projeto Cartografias de Bambas?

É um projeto coordenado por Nathália Oliveira que busca valorizar a memória negra do samba na Barra Funda, com um festival mensal na Rua do Samba.

O que foi o Largo da Banana?

Foi um ponto na Barra Funda onde estivadores negros se reuniam no final do século 19, considerado berço do samba paulistano. Hoje resta apenas uma placa no local.

Leia também

Publicidade