Crítica · Destaques

Evento de arte e tecnologia alfineta IA com bordado no Sesi Lab

ResumoA artista Regina Silveira, aos 87 anos, apresenta no Sesi Lab, em Brasília, um vinil de 530 m² com agulhas e bordados em ponto de cruz inacabados. A obra costura memória afetiva e provoca debate sobre inteligência artificial, abrindo a visitação no espaço cultural.

Vinil de 530 m² com agulhas e bordados em ponto de cruz inacabados abre a visitação no Sesi Lab, em Brasília. A obra de Regina Silveira, de 87 anos, costura memória afetiva e debate sobre inteligência artificial.

Hélio Tamandaré
Hélio Tamandaré Colunista de quadrinhos e cultura pop clássica · 15 de setembro de 2026
Evento de arte e tecnologia alfineta IA com bordado no Sesi Lab
8.9/10
VereditoVinil de 530 m² com agulhas e bordados em ponto de cruz inacabados abre a visitação no Sesi Lab, em Brasília. A obra de Regina Silveira, de 87 anos, costura memória afetiva e debate sobre inteligência artificial.

Um vinil de 530 metros quadrados tomou os vidros do Sesi Lab, na área central de Brasília. Sobre eles, agulhas gigantes e uma série de bordados em ponto de cruz inacabados. É "Bordaduras", instalação da artista plástica Regina Silveira, de 87 anos, professora emérita da Universidade de São Paulo (USP), aberta à visitação nesta terça (15).

A obra ocupa os vidros do museu e, do lado de dentro, um painel de LED exibe "Dígito", trabalho que a artista criou nos anos 1980. A instalação integra o 25º Encontro Internacional de Arte e Tecnologia, evento que debate a interseção entre as duas áreas e reúne, até domingo (20), obras e experimentos de 41 artistas de diferentes regiões do País, no próprio Sesi Lab e no Museu Nacional de Brasília.

O traço de Regina Silveira também conta a história de quem passa pelo museu. Kaliane Martins, de 40 anos, potiguar, agente de portaria do Sesi Lab há quatro anos, aprendeu a bordar com a mãe e a avó. Ao ver as agulhas da instalação, recordou as roupas que costurou para si e para os três filhos adolescentes. "Nunca foi fácil costurar cada dia de batalha", disse ela à Agência Brasil.

Na porta do museu, o professor de circo tocantinense Gabriel Coelho, de 21 anos, ensaiava com malabares de pinos coloridos. Ao observar a obra, lembrou que aprendeu com a mãe a costurar e a fazer crochê. "Desestresso com agulha e linha, e fico mais longe do celular", contou.

Regina Silveira situa os bordados em ponto de cruz no repertório gráfico que utiliza desde o novo milênio, com apoio de meios digitais, e lembra que a prática esteve ligada à alfabetização das mulheres no Pré-Renascimento, quando bordavam letras em enxovais. Sobre a inteligência artificial, a artista evita o tom apocalíptico: para ela, as tecnologias atuam com repertórios e memórias já existentes. "Nesse sentido, ela pode ajudar, mas não pode ajudar a criar ou a pensar", afirma. "Invenção é própria do cérebro humano."

A artista e professora Suzete Venturelli, uma das coordenadoras do evento, também defende atenção ao uso das tecnologias generativas. Ela relata que muitos alunos resistem às ferramentas e que os bancos de dados usados carregam viés racista e eurocêntrico. Para ela, é preciso educar para o bom uso da IA, privilegiando a criatividade. arte digital brasileira

A programação segue até domingo (20), com palestras e experimentos que colocam o bordado, o corpo e o código na mesma mesa. Quem faz arte há décadas sabe que a agulha sempre foi uma forma de pensar o mundo. história da arte e tecnologia no Brasil

Leia também

Publicidade