Crítica · Destaques

Mestres da cultura popular evocam tradição e encanto a novos públicos

ResumoFrancisca Dias, rainha do Maçambique de Osório, e Tião Carvalho, mestre do Maranhão, apresentaram-se no Encontro de Mestres em Brasília. As manifestações de tradição, fé e resistência cultural atraíram novos públicos. O evento evidenciou a continuidade de práticas populares como patrimônio vivo, reforçando o papel de mestres na transmissão de saberes ancestrais.

A rainha Francisca Dias, do Maçambique de Osório, e o mestre Tião Carvalho, do Maranhão, se apresentam no Encontro de Mestres em Brasília. Tradição, fé e resistência encantam novos públicos.

Hélio Tamandaré
Hélio Tamandaré Colunista de quadrinhos e cultura pop clássica · 31 de agosto de 2026
Mestres da cultura popular evocam tradição e encanto a novos públicos
6.9/10
VereditoA rainha Francisca Dias, do Maçambique de Osório, e o mestre Tião Carvalho, do Maranhão, se apresentam no Encontro de Mestres em Brasília. Tradição, fé e resistência encantam novos públicos.

No palco do Conic, em Brasília, a rainha Francisca Dias, de 65 anos, e mais 19 músicos do quilombo do Morro Alto sobem para o Encontro de Mestres da cultura popular, neste sábado (29), às 20h, com entrada gratuita. A expressão "alumiar em vida" traduz o que é assumir a coroa de rainha do congado do Maçambique de Osório, manifestação de matriz africana bantu mantida no litoral norte gaúcho desde o século 19. "São as mesmas roupas e músicas desde sempre", diz a Rainha Ginga Preta, como é conhecida na comunidade.

A tradição, a fé e a memória encantam a comunidade e formam uma aliança de resistência entre gerações. Os artistas vão de crianças a idosos, e tudo é produzido pelo próprio grupo, incluindo os instrumentos. Além dos tambores, a comunidade faz a maçacaia, um cestinho de taquara com sementes de caetés que garante o ritmo. A fé católica enaltece Nossa Senhora do Rosário. "A bandeira é muito sagrada para a gente", afirma a rainha.

A arte também ensina contra preconceitos, incluindo o racismo. "A gente prepara as nossas crianças para se defenderem com palavras", conta. Para ela, apresentar a tradição na capital emociona: "É um sonho de levar a nossa cultura pelo Brasil. É muito triste quando existe quem estranhe a presença das pessoas negras no Rio Grande do Sul".

O curador Anderson Formiga destaca que há artistas de 11 estados e do Distrito Federal na programação, que começou quinta (27). "A gente tentou formar um mosaico de cultura popular, muito negro, mas com um pé nas origens europeias e indígenas", disse. O evento inclui oficinas e busca encantar os jovens. "O jovem precisa ser encantado", acredita. Os artistas mais velhos têm feito herdeiros dispostos a honrar as tradições.

A rainha Preta conta que, na congada, "ninguém nem pensa em pegar o celular". Seu maior desejo é honrar os ancestrais. A mãe, Severina Dias, última rainha, morreu em 7 de outubro de 2016, dia de Rosário, e pediu que Francisca mantivesse viva a tradição. Neste ano, a celebração do maçambique ocorre em 24 de setembro. O quilombo tem 1.750 famílias.

O mestre maranhense Tião Carvalho, de 71 anos, também cuida do legado. Professor na educação básica, fundou o grupo Cupuaçu, dedicado às brincadeiras populares, e mistura samba, coco, bumba-meu-boi, forró e baião. "É preciso que o Brasil valorize mais a cultura tradicional. Buscamos políticas públicas que garantam espaço para nós", afirma. Ele entende que artistas com mais recursos ainda são mais contemplados. "Se você mostrar a cultura para o jovem, ele vai gostar", considera.

O encontro em Brasília segue até sábado, com apresentações e oficinas. A tradição, viva nas ruas e nos palcos, segue encantando novos públicos. cultura popular brasileira manifestações tradicionais

Leia também

Publicidade