Padre impede Lavagem da Madeleine em Paris; festa muda de local
A 25ª edição da Lavagem da Madeleine, celebração afro-brasileira em Paris, perdeu a autorização da Igreja para lavar as escadarias. O evento foi transferido para uma área pública em frente, onde são esperadas 60 mil pessoas.
A cena se grava na memória de quem já viu: dezenas de baianas com suas saias rodadas descem a escadaria da igreja La Madeleine, em Paris, derramando água de cheiro e flores brancas sobre os degraus de pedra. Em 2026, essa imagem não vai se repetir. Marcada para domingo (13), a 25ª edição da Lavagem da Madeleine não obteve autorização da Igreja para ocupar as escadarias. O evento foi transferido para uma área pública em frente ao templo, onde a organização espera 60 mil pessoas.
A mudança de local ocorreu após o pároco de La Madeleine, o Monsenhor Patrick Chauvet, informar que não permitiria a lavagem da escadaria neste ano, como vinha ocorrendo nas edições anteriores. Em nota, a 25ª edição da Lavagem lamenta a decisão e afirma que permanece aberta ao diálogo. Procurada pela reportagem, a Arquidiocese de Paris não explicou a negativa.
A celebração é ecumênica e reúne referências do catolicismo e das religiões de matriz africana. Na edição de 2025, homenageou a cantora Preta Gil. Em anos anteriores, passaram por ali Gilberto Gil, Caetano Veloso, Daniela Mercury, Margareth Menezes, Carlinhos Brown e Olodum. A lavagem é inspirada na tradicional Lavagem da Igreja do Bonfim, em Salvador, e, desde 2022, é reconhecida pelo Ministério da Cultura francês como patrimônio imaterial, parte do calendário cultural de Paris. A festa integra ainda a Rota dos Escravizados da Unesco.
Apesar da negativa, a festa segue. A cantora Mariene de Castro é a principal atração. O mestre de cerimônias, o multiartista Robertinho Chaves, um dos organizadores, comandará o evento ao lado dela, do alto de um trio elétrico. Também são esperados o cantor Jau, a artista franco-brasileira Gildaa e Lorena Pires, residente da Academia de Ópera Nacional de Paris, que interpretará a Ave Maria. A concentração será na Place de la République, de onde sai um cortejo ao som de samba, maracatu, capoeira e uma ala de baianas.
Em nota no site, a organização convoca apoio: "Convocamos artistas, instituições culturais, líderes religiosos, movimentos sociais, brasileiros, franceses, imigrantes e todas as pessoas comprometidas com a liberdade religiosa, a diversidade e direitos a apoiarem a 25ª edição da Lavagem".
Vale assistir com calma ao que se anuncia para domingo. Sem a escadaria, o cortejo ganha as ruas, e o samba encontra outro chão para ecoar. Lavagem do Bonfim em Salvador