Escritora Nathacha Appanah é destaque internacional da Flip
Na 24ª edição da Flip, Nathacha Appanah brilha como uma das autoras internacionais, discutindo sua obra sobre mulheres vítimas de violência doméstica. Sua narrativa é um convite à reflexão sobre temas relevantes.
Escritora Nathacha Appanah é um dos destaques internacionais da Flip
Na 24ª edição da Festa Literária de Paraty (Flip), a escritora franco-mauriciana Nathacha Appanah se destacou como uma das convidadas, contribuindo para a diversidade geográfica e cultural do evento. Sua obra mais recente narra os destinos de três mulheres submetidas à violência doméstica, trazendo uma reflexão profunda sobre o tema.
Nathacha participou de uma das mesas do programa principal da Flip, realizada na sexta-feira (24). Em sua fala, ela compartilhou que seu livro, Noite no coração (Bazar do Tempo), foi traduzido e publicado em mais de 15 países e representa uma tentativa de romper o silêncio em torno das violências íntimas e sociais.
As personagens de sua narrativa têm origem em histórias reais, e uma delas é inclusive a experiência da própria autora, enquanto as outras duas foram assassinadas por seus companheiros. Nathacha descreve sua obra como um espaço que vai além do relato, entrelaçando romance e reflexão. "Tudo isso estava contido neste livro e que sobretudo havia nele a tentativa de uma escritora de colocar adiante a linguagem e sua própria condição", revelou durante o evento.
Ao longo de sua conversa, ela destacou que, ao iniciar a produção do livro há mais de cinco anos, tinha uma visão clara: "Eu tinha a impressão de que a única coisa que eu poderia fazer como objetivo literário seria contrair o tempo, fazer com que três mulheres que jamais se encontraram ou conheceram existissem no mesmo local, trazer essas três existências pra dentro do livro."
Nascida nas Ilhas Maurício e proveniente de uma família de imigrantes indianos que se radicou na França, Nathacha falou sobre como a ideia de deslocamento e migração influencia sua vida e sua escrita. "O que eu aprendi antes dos deslocamentos, antes do que é deslocamento, é que nenhuma língua é superior às outras. Havia a língua do coração, da intimidade, da escola. Havia a língua que nós falamos com um vizinho específico, uma língua de sedução", explicou.
Ela enfatizou que essa pluralidade de línguas e experiências formava uma parte essencial de sua existência. "As Ilhas Maurício ficam muito longe de tudo, e nessa casa estranha - eu digo estranha, mas era muito bela - eu tinha a impressão de ter o mundo ao meu alcance", concluiu.
Nathacha também mencionou que cresceu em um ambiente familiar que favorecia a diversidade cultural. "Meus avós eram pessoas que nasceram e viveram numa plantação de cana-de-açúcar na era colonial. Eles falavam uma língua indiana, que é minha língua materna", relatou.
"E, ao lado dos meus pais, que eram pessoas instruídas, que frequentavam a escola, que trabalhavam, eu tinha a impressão de viver como num fio que se estendia entre um passado que eu jamais havia conhecido, mas cujas histórias chegavam até mim porque minha avó contava muitas coisas, ela me falava em várias línguas. Por outro lado, havia meus pais que viviam numa modernidade voltada para o exterior, para fora", acrescentou.
Na mesma mesa, estava também a escritora brasileira Bethânia Pires Amaro, que em sua obra Ressalga (Record) aborda o tema da violência de gênero através da narrativa de três gerações de mulheres na Bahia. Ao discutir a construção de suas personagens, Bethânia compartilhou que uma de suas ferramentas é o realismo mágico. "O realismo mágico acaba trazendo um olhar muito rico e muito particular que permite uma aproximação um pouco mais indireta. E que vai brincar um pouco também com essa imaginação do leitor, vai mostrar, por exemplo, essas mulheres não reduzidas àquelas violências, mas como seres que realmente estão florescendo", afirmou.
A participação de Nathacha Appanah na Flip é um reflexo da importância de trazer vozes diversas para o cenário literário. Sua abordagem sensível e impactante sobre temas como a violência doméstica nos convida a refletir sobre as realidades de muitas mulheres ao redor do mundo. Ao final do evento, ficou evidente que a obra de Nathacha é um convite à empatia e à compreensão, ressaltando a relevância de suas histórias na literatura contemporânea.
A equipe de reportagem viajou a convite do Instituto Motiva, patrocinador e parceiro oficial de mobilidade da Flip 2026.