Mostra em SP exibe produção do indigenista Vincent Carelli
Documentário Arquivo Vivo, dirigido por Vincent Carelli e Ana Carvalho, é exibido nesta quinta-feira (10), às 20h, no CineSesc, em São Paulo. A obra recupera como o projeto Vídeo nas Aldeias se firmou como acervo dos povos originários, com mais de 70 filmes rodados.
O CineSesc, na capital paulista, exibe nesta quinta-feira (10), às 20h, o documentário Arquivo Vivo, em que Vincent Carelli e Ana Carvalho dividem a direção. Parte da programação do festival Amor ao Cinema, a obra recupera como o projeto Vídeo nas Aldeias se firmou enquanto acervo dos povos originários brasileiros, com mais de 70 filmes rodados.
A sessão interessa menos pelo formato do festival e mais pelo que o filme documenta: um acervo construído ao longo de décadas, em que indígenas passaram a filmar e não apenas a ser filmados. É esse deslocamento que Arquivo Vivo recupera.
Do missionário à aldeia
Franco-brasileiro, Carelli começou a flertar com o indigenismo muito cedo, por influência de um missionário dominicano de seu colégio em São Paulo, e filósofo que já circulava em comunidades Mẽbengôkre Xikrin (ou Kayapó Xikrin), no Pará.
Das apresentações com slides que o religioso preparava e mostrava em aulas, nasceu a vontade de acompanhá-lo nas viagens. Aos 16 anos, perguntou se poderia ir em uma das viagens e teve seu pedido atendido. Era a primeira vez que subia em um avião, e a sequência de voar e horas depois descer na floresta e entrar na aldeia o marcou para sempre.
"A sensação de ter adentrado em outro momento da humanidade foi muito forte. O cheiro, a emoção. A emoção deles [indígenas], que também estavam recebendo um [indígena] que estava se tratando em Marabá, e aquele choro kayapó diante do retorno, a saudade das irmãs", lembra Carelli, filho parisiense do ceramista, desenhista e pintor Antônio Carelli e de mãe brasileira, e irmão da atriz e diretora teatral Chica Carelli.
Já reconhecido como um não indígena de confiança, Carelli foi convidado pelos xikrin para permanecer na aldeia, após concluir uma formação de indigenista em Brasília. Contudo, como era no período da ditadura, houve um impedimento de militar, naquele momento e daquela forma, com o movimento indígena.
O que se perde quando os velhos se vão
Nos anos 1970, o cineasta trabalhou na Funai e cofundou o Centro de Trabalho Indigenista (CTI), com um grupo de antropólogos. Foi também nessa década que ele e Andrea Tonacci se conheceram, para formatar um projeto para a Guggenheim, chamado Inter Povos. Tonacci já idealizava usar o vídeo para encurtar distâncias entre os povos indígenas, e o VHS foi o ingrediente que faltava.
Em 1986, com essa proposta, começava oficialmente a história do Vídeo nas Aldeias, estruturado por Carelli com sua esposa, a antropóloga Virgínia Valadão. O projeto não parou nem durante a pandemia da covid-19. Ao contrário, seria, pela negligência do governo de Jair Bolsonaro, segundo Carelli, ainda mais importante para documentar o que foi, para muitos indígenas, seu ciclo derradeiro.
"A questão da apropriação da imagem, afinal, tem várias dimensões. Uma é a que se tem consigo mesmo. Mas tem também a de memória de vidas que estão sofrendo um momento muito intenso de cotidiano, de novidades. Os velhos se vão", pondera.
Um questionamento mencionado pelo indigenista provoca melindres até hoje: "Existe instituição do Estado brasileiro comandada, com autonomia, por povos indígenas? Qual é a relação dos museus? É quase uma utopia. E eles não podem ser alienados das imagens, têm que ter acesso a elas."
A exibição de Arquivo Vivo em São Paulo coloca essa pergunta diante de um público que raramente a enfrenta. O acervo existe, os filmes foram rodados, mas o acesso a eles segue sendo o ponto em disputa. Memória também é construção, e o que não circula tende a desaparecer.