Flip: livro apresenta poesia de Orides Fontela ao público infantil
Na 24ª Flip, o livro 'Pelos Olhos de Orides' (Hedra) adapta a poesia da autora homenageada para o público infantil. Com ilustrações de Cynthia Cruttenden e organização de Augusto Massi, a obra convida crianças a contemplar o mundo com olhar poético e curioso.
Flip: livro apresenta poesia de Orides Fontela ao público infantil
Uma nuvem se transforma em "a flor do céu". Um pássaro, uma vaca, um caleidoscópio ganham novas camadas de sentido. Assim é a poesia de Orides Fontela, que agora chega às crianças em Pelos Olhos de Orides (Editora Hedra), lançado em julho de 2026 durante a 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), onde a poeta foi a autora homenageada.
O livro propõe uma aproximação das novas gerações à obra de Orides, que parte de elementos simples e cotidianos para refletir sobre o mundo, o tempo e a espera. Com linguagem precisa, a adaptação reúne literatura, arte e natureza, oferecendo às crianças possibilidades de contemplação e curiosidade, marcas registradas dos poemas da autora.
Orides Fontela e a infância: um encontro de olhares
Orides Fontela morreu em 1998, aos 58 anos, logo após o lançamento de Teia. Sua obra, marcada por uma poesia intensa e cheia de mistério, encontra agora um novo público. "Fico imaginando uma criança que se depara com os poemas da Orides, tão cheios de mistério e quase queimando na ponta da língua de tanta intensidade. É uma chance de a criança lembrar do susto e da beleza de ver o mundo por outra perspectiva", disse o poeta e educador André Gravatá, em entrevista à Agência Brasil.
Gravatá, autor de livros infantis como Converseiro da Natureza (Companhia das Letras) e Todo mundo rodopia enquanto rodopia o mundo (Peirópolis), lembra de uma ocasião em que uma criança lhe contou sobre ter conversado com a água. "Ela estava escovando os dentes e decidiu se declarar dizendo 'eu te amo' para a água. O que é isso senão um poema vivido no corpo? Criança que lê poesia encontra alimento para nutrir sua sensibilidade, para continuar brincando, se espantando."
Para ele, "provocar a paixão pela literatura já na infância é fundamental". As crianças, completa, amam ouvir poemas, ainda mais quando quem os apresenta tem paixão pelo que diz. "Poetas brincam com as palavras, assim como as crianças brincam com tudo que encontram, então elas sabem bem a essência do ofício de quem trama poemas."
O projeto gráfico: ilustrações que saem do livro
O lançamento de Pelos Olhos de Orides foi celebrado em mesa de conversa na Casa da Árvore, durante a Flip, com a presença do organizador Augusto Massi e da ilustradora Cynthia Cruttenden. Para Massi, a poesia de Orides compartilha com a infância uma mesma postura diante do mundo: o olhar investigativo e a liberdade de interpretação.
"Tem espaço no livro, contrastes, exatamente para que a criança possa fazer perguntas. Outra coisa que a Orides ensina é realmente tecer considerações sobre as coisas, [como faz] ao descrever certos pássaros. O João de Barros que aparece e ela fala: 'É o pássaro operário, é o pássaro trabalhador'", disse no evento.
Massi também relacionou vivências da poeta à sua obra: Orides passeava muito com o pai e pescavam juntos. "Vocês vejam, a pesca exige silêncio. É uma atividade que tem silêncio. E, quando você faz silêncio no meio da natureza, escuta o canto dos pássaros, o vento batendo nas folhas. Sem nenhum tom de denúncia, o livro da Orides é um livro ecológico."
Sobre o trabalho de Cynthia Cruttenden, Massi afirmou que o projeto de ilustração foi "um acontecimento". Em vez de imagens óbvias, a ilustradora explorou formas, cores e movimentos que podem levar a uma diversidade de interpretações. "Não só ela conseguiu dar movimento no livro, mas, ao mesmo tempo, as figuras querem sair do livro. Elas têm força para não ficar encaixadas ali."
Para Cynthia, o interessante para as crianças é a característica lúdica das imagens, que trazem liberdade e alegria. "Não tem uma figura tão clara, ela está meio escondida ali dentro. São formas com cores fortes e movimento, que trazem uma dualidade das coisas. Eu acho que isso instiga. É mais livre nesse sentido de interpretação e visualmente."
Flip 2026: o educativo e o acesso à leitura
A Flip também contou neste ano com o Circuito Cultural, que levou cerca de 270 crianças e adolescentes das comunidades locais para participar do festival literário em Paraty. Além de vivenciar atividades voltadas especialmente a este público na Flipinha e na Casa da Cultura, eles percorreram as ruas do centro histórico da cidade, onde diversas manifestações culturais aconteciam.
Direcionado a estudantes da rede pública e participantes de organizações sociais, o Circuito Cultural é um projeto mais amplo do Instituto Motiva e ocorre em três estados: São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia. Ao todo, a iniciativa planeja atingir mais de 3 mil crianças e jovens ao longo deste ano.
"Ao conectar as crianças e os jovens a museus, festivais literários e espaços culturais, a gente busca ampliar repertórios, fortalecer o senso de pertencimento e contribuir para a formação de cidadãos mais críticos, criativos e preparados para construir seus próprios projetos de vida", disse Jéssica Trevisam, gerente do Instituto Motiva.
O Programa Educativo da 24ª Flip, que contempla Flipinha, FlipZona e FlipEduca, teve mais de 15 mil participações em atividades gratuitas realizadas ao longo de quatro dias em Paraty, reunindo crianças, jovens, famílias, educadores e mediadores de leitura.
Para André Gravatá, uma das prioridades de todo evento de literatura deveria ser provocar o interesse das crianças e jovens pela literatura. "Fortalecer os espaços educativos, com mais recursos e programação ampliada, faz diferença no presente e no futuro. Uma das cenas mais lindas que eu vi na Flip deste ano foi uma criança abraçada a um livro. Ela folheava as páginas com os olhos brilhando, o livro era um brinquedo na mão dela!"
"Por isso é tão importante ver a programação do educativo da Flip para as crianças e jovens e outras atividades que também acontecem por lá pra esses públicos, porque assim a gente provoca que desde criança aconteça uma relação afetiva com o livro", disse o escritor, que participou de eventos da Flip neste ano e no ano passado.
Perguntas Frequentes
O que é o livro 'Pelos Olhos de Orides'?
É uma adaptação da poesia de Orides Fontela para o público infantil, lançada pela Editora Hedra em julho de 2026, com organização de Augusto Massi e ilustrações de Cynthia Cruttenden.
Onde o livro foi lançado?
O lançamento ocorreu durante a 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), na Casa da Árvore, onde Orides Fontela foi a autora homenageada.
Quem é André Gravatá e o que ele disse sobre o livro?
André Gravatá é poeta e educador, autor de livros infantis como 'Converseiro da Natureza'. Ele afirmou que a obra oferece às crianças uma chance de ver o mundo por outra perspectiva.
Como são as ilustrações do livro?
Cynthia Cruttenden criou imagens com formas, cores e movimentos que não são óbvias, permitindo múltiplas interpretações e trazendo liberdade visual para as crianças.
O que foi o Circuito Cultural da Flip 2026?
Foi um projeto do Instituto Motiva que levou cerca de 270 crianças e adolescentes das comunidades locais para participar do festival, com atividades na Flipinha e na Casa da Cultura.
Quantas participações o Programa Educativo da Flip teve?
O Programa Educativo da 24ª Flip, que inclui Flipinha, FlipZona e FlipEduca, teve mais de 15 mil participações em atividades gratuitas ao longo de quatro dias.