# Crimes da ditadura paraguaia seguem sem respostas, diz ator no CineSur

> O ator Diro Romero, no Bonito CineSur, afirma que crimes da ditadura paraguaia seguem sem respostas. O filme Quién Mato a Narciso?, inspirado em caso real, venceu em Berlim e reacende o debate sobre o período de Alfredo Stroessner. A obra expõe a impunidade histórica e a falta de justiça para vítimas do regime.

*Clássicos Brasil · Destaques · 31 de julho de 2026 · Ariovaldo Setúbal*

No Bonito CineSur, o ator Diro Romero afirma que crimes da ditadura paraguaia seguem sem respostas. O filme Quién Mato a Narciso?, inspirado em caso real, venceu em Berlim e reacende o debate sobre o período de Alfredo Stroessner.

## Crimes da ditadura paraguaia seguem sem respostas, diz ator no CineSur

A cena se grava na memória: um jovem locutor de rádio dorme, e o fogo consome o quarto. É madrugada de 1959, no Paraguai. Bernardo Aranda, homossexual, apaixonado por rock and roll, morre queimado enquanto dorme. O crime nunca foi solucionado. Essa história, agora, chega ao cinema.

Os crimes da ditadura paraguaia seguem sem respostas, diz o ator Diro Romero, que interpreta Narciso no filme Quién Mato a Narciso?. A produção foi exibida esta semana no Bonito CineSur, festival que ocorre em Bonito (MS) até este sábado (1°/8).

Durante os 35 anos de governo do general Alfredo Stroessner, entre 1954 e 1989, o regime prendeu arbitrariamente quase 20 mil pessoas, torturou 19 mil e matou 60. Além disso, 3,5 mil precisaram ser exiladas, segundo dados divulgados em 2003 pela Comissão da Verdade e Justiça do Paraguai. Entre os grupos que mais sofreram violações estavam os formados por pessoas LGBTQI+.

## O caso que virou filme

O assassinato de Bernardo Aranda, em 1959, é um dos casos mais emblemáticos. Para a Comissão da Verdade e Justiça paraguaia, o crime pode ter sido tramado pelo governo militar. A história inspirou o livro Narciso, do escritor e jornalista paraguaio Guido Rodríguez Alcalá, adaptado ao cinema pelo diretor Marcelo Martinessi.

Quién Mato a Narciso? conquistou recentemente o Prêmio de Melhor Filme da Mostra Panorama do Festival de Berlim. No Bonito CineSur, integra a competição de filmes sul-americanos.

## A falta de respostas, dentro e fora da tela

Diro Romero, em entrevista durante o festival, foi direto: "Esse crime nunca foi esclarecido até hoje. Por isso, durante a apresentação [do filme no Bonito CineSur], eu falei: 'Tanto no cinema quanto na vida, muitas vezes não temos respostas'. Então, no cinema também não há um desfecho, porque nós mesmos, no Paraguai, não sabemos a resposta. E este é apenas um dos muitos casos que ocorreram".

Para Romero, a história da ditadura no Paraguai é muito semelhante às dos demais países da América do Sul, com "desaparecidos, torturas e mortes que, até hoje, permanecem sem esclarecimento". Ele defende que apresentar essa história pelo cinema transmite a ideia de que essa violência jamais volte a ocorrer entre países sul-americanos.

"Viemos do mesmo lugar. A ideia é que sejamos mais unidos. Acho que é isso que as pessoas querem, mas nossos líderes estão seguindo uma direção diferente. Estamos nos dividindo em um momento em que precisamos estar mais unidos do que nunca."

## Um novo momento do cinema paraguaio

Quién Mato a Narciso? marca uma virada. Nos últimos anos, o Paraguai instituiu novas políticas para incentivar sua produção cinematográfica: a Lei do Cinema (2018), a criação do Instituto Nacional do Audiovisual do Paraguai e o recente acordo de coprodução cinematográfica e audiovisual do Mercosul.

O documento, assinado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, moderniza regras para o setor audiovisual do bloco e permite que coproduções recorram a fundos públicos de fomento dos países que compõem o Mercosul.

## O fenômeno 7 Caixas

O ator, músico, produtor e membro da Academia de Cinema e da União de Atores do Paraguai, Celso Franco, lembra que o cinema de seu país só ganhou impulso após o sucesso de 7 Caixas (2012), filme que ele protagonizou e que atraiu 300 mil pessoas aos cinemas paraguaios.

"Foi um filme que teve um impacto enorme no cinema. Foi um fenômeno, e um fenômeno decorrente de uma questão que venho analisando há muito tempo: a falta de visão do Paraguai sobre si mesmo."

Há cerca de cinco anos, o setor de investimento ganhou impulso. "Agora temos o INAP, o Instituto Nacional do Audiovisual, que conta com fundos específicos para o cinema e vem impulsionando fortemente a produção audiovisual."

Para Franco, com as novas políticas, o cinema paraguaio poderá, finalmente, contar suas histórias. "Há muitas histórias para serem contadas."

## O que observar ao assistir

Vale assistir com calma a Quién Mato a Narciso?. Observe como Martinessi conduz a narrativa sem oferecer um desfecho fácil. A ausência de resposta é a própria denúncia. O filme não resolve o caso, porque o Paraguai, até hoje, não o resolveu.

- A repórter viajou a convite do Bonito CineSur

## Perguntas Frequentes

### Quem foi Bernardo Aranda?

Bernardo Aranda foi um locutor de rádio homossexual, amante do rock and roll, assassinado em 1959, no Paraguai. O crime nunca foi solucionado e pode ter sido tramado pelo governo militar, segundo a Comissão da Verdade e Justiça paraguaia.

### O que é o filme Quién Mato a Narciso??

É um filme dirigido por Marcelo Martinessi, baseado no livro Narciso, de Guido Rodríguez Alcalá. A obra aborda o assassinato de Bernardo Aranda e venceu o Prêmio de Melhor Filme da Mostra Panorama do Festival de Berlim.

### Quais foram os números da ditadura de Stroessner?

Segundo a Comissão da Verdade e Justiça do Paraguai, o regime de Alfredo Stroessner prendeu arbitrariamente quase 20 mil pessoas, torturou 19 mil, matou 60 e exilou 3,5 mil, entre 1954 e 1989.

### O que mudou no cinema paraguaio recentemente?

O Paraguai instituiu a Lei do Cinema (2018), criou o Instituto Nacional do Audiovisual (INAP) e assinou o acordo de coprodução do Mercosul, que permite acesso a fundos públicos de fomento.

### Onde o filme foi exibido?

Quién Mato a Narciso? foi exibido no Bonito CineSur, festival de cinema em Bonito (MS), até 1° de agosto, dentro da competição de filmes sul-americanos.

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Fonte (canonical): https://classicosbrasil.com.br/destaques/crimes-ditadura-paraguaia-seguem-sem-respostas-diz-ator-cinesur/
